Esses dias, um conhecido meu me parou na rua pra dizer que gostou de algumas músicas minhas que ouviu. Falou pra eu investir no rap, que eu tenho futuro. Fiquei todo felizão e agradeci os elogios. Na real, as coisas não são tão simples, assim. Sou pai de 2 filhos. Invisto no rap e vou viver de que?
Gosto de rap, tento me aperfeiçoar como DJ, canto e até escrevo. Mesmo num estudiozinho meia-boca, consigo arrancar elogios ou críticas. Suponhamos que eu grave um som em estúdio com auxílio de um produtor. Vai custar “x”. Depois de pronto, jogo este som na net ou pago 1 mês pra tocar na 105. Quanto isso tudo vai custar?
Será que terei um retorno financeiro, para cobrir o custo?
Quantos grupos que fazem um rap de qualidade não ficaram no anonimato porque não tiveram dim dim pra poderem tocar no rádio?
Até 2004, quando a politicagem de minha cidade passou abraçar o rap como ferramenta de ganhar votos, eu ainda tinha planos de investir no rap. Daquele ano pra cá, surgiram dezenas de grupos de rap (gente que nem conhecia o rap tava fazendo rima e subindo nos palcos). Eu ficava envergonhado de ouvir as besteiras que aqueles rappers inexperientes cantavam ou falavam nos microfones, mas quem era eu pra falar algo contra?
Ninguém me ouvia. Tudo era festa, pra eles. Passaram as eleições e as máscaras daqueles políticos caíram por terra. Mostraram a sociedade um movimento de imaturos rebelados dispostos a cortar o próprio pulso em troca de farinha e pedra. Acabaram com a pouca moral que o rap tinha na minha cidade, que já tava bastante em baixa, devido aos aventureiros de bombeta e lata. Até eu fui confundido com bandido por estar correndo com quem não tinha o mesmo objetivo que o meu.
De 2004 a 2006, a situação piorou mais e eu nem era mais convidados para os eventos. Fui tirado de palpiteiro, “zé blá blá blá”. Talvez se eu tivesse envolvimento com o crime, seria mais aceito. Passaram-se 3 anos e o rap, em minha cidade, continua sendo confundido com o funk carioca. As dezenas de grupos daquela época de festa, nunca mais ouvi falar. Cada um deles tomou um rumo na vida. Alguns constituíram família, enquanto outros se afundaram no crime com o tráfico, assaltos e assassinatos. Ouvi dizer que alguns ainda cantam rap, mas falta disposição para mostra serviço. Muitos me perguntam quando vai ter outra festa de rap em minha cidade. Eu digo que, se depender de mim, vai ser difícil. Nunca ganhei 1 cesta básica (gratidão) fazendo eventos beneficentes e ninguém, nem os “manos”, tão a fim de pagar 5 contos para ir a um baile rap. Infelizmente o crime continua falando alto, quando o assunto é hip-hop ou rap, em minha pequenina cidade.
Deí é Deí é dj, rapper e produtor musical. Nascido e criado em Aguaí, interior paulista, se identificou com o rap brasileiro depois de ouvir Corpo fechado, com Thaíde & DJ Hum pela 1ª vez no programa Balanço Geral, na rádio Bandeirantes FM, em 1987. Em 1990, se mudou para Campinas a trabalho, onde conheceu o rap de mais perto através do grupo Sistema Negro e da loja Colors Discos do Zezé Vital, onde comprava seus vinis. Em 1992 se profissionalizou como dj com o Grand Master Ney de São Paulo. Nos toca-discos ou no microfone, Deí fez vários trabalhos como rapper e dj. Só não contribuiu mais com a cultura Hip-Hop devido a distância entre Aguaí e a Capital (250 km). Em 2000, foi pioneiro em trazer eventos beneficentes de Hip-Hop para a região, com a contribuição de grupos como Sistema Negro, Face da Morte, Expressão Ativa entre outros. A 1ª Festa Hip-Hop beneficente de Aguaí incentivou diversos militantes de Hip-Hop a realizarem eventos desta natureza (inéditos até o momento) pela região. Aos 36 anos, além de rapper e dj, Deí também é pai de família e está envolvido em diversos eventos de Hip-Hop pela região, além de escrever em seu blog, (Blog do Deí) em http://djdei.blogspot.com .E-mail:djdei32@msn.com
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